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A Atividade lúdica e o desenvolvimento infantil

O Câncer e as emoções
8 novembro, 2018

Esse texto se dirige a cuidadores e educadores de crianças na idade pré-escolar que tenham interesse em compreender um pouco mais de aspectos do desenvolvimento psíquico na infância. Não iremos nos estender muito, mas pincelar alguns aspectos relevantes do desenvolvimento através do lúdico como atividade socialmente mediada.

Muito ouvimos nos dias de hoje que criança tem mais é que se divertir, lugar de criança é em parquinho e no meio de brinquedos. Essas falas são muito importantes quando usadas como formas de confrontar problemas sociais como o trabalho infantil, a negligência parental e privação de contato da criança com seus pares. Contudo, pensando-se no desenvolvimento da criança em suas máximas potencialidades, é importante para aqueles que cuidam dela compreender o papel da brincadeira no desenvolvimento humano, não simplesmente como um passatempo, mas principalmente como via de desenvolvimento para próximas etapas da periodização.
A psicologia, como ciência que visa à promoção e entendimento do desenvolvimento e saúde em sua totalidade do ser humano, é formada por diferentes teorias compostas por inúmeras concepções de ser humano. A Psicologia Histórico-Cultural compreende que ao longo da vida diferentes atividades, isto é, relações do indivíduo com a realidade circundante, são o ponto motriz que engendram o desenvolvimento psíquico. A atividade de trabalho é o ponto em que na vida adulta adquirimos máximas possibilidades de nos apropriarmos de conhecimentos já produzidos pela humanidade e de sermos produtores e contribuintes desse conhecimento. Para chegarmos a esse momento, precisamos passar por etapas anteriores.
Por volta da idade pré-escolar, a criança gradualmente vai deixando de brincar sozinha e manipular objetos que sejam atrativos sensório-perceptualmente (cheiro, cor, gosto, textura) e passa a partir destes desempenhar funções sociais. Desse modo, o carrinho, a boneca, a xícara de plástico, o estetoscópio, as ferramentas não mais serão objetos para simples manipulação e exploração que se esgote por via dos sentidos. Estes objetos serão significados como instrumentos de desempenhar o papel de uma atividade social (mamãe, papai, médico, pedreiro…). Uma vez que a criança observa os adultos ao seu redor desempenharem certas funções fora de seu alcance, sendo capaz de captar num primeiro momento caraterísticas dessas atividades, a criança irá reproduzi-las através do jogo tal como uma simulação ou ensaio da vida adulta. Não se trata de mera repetição, mas ao se envolver no lúdico, a criança internaliza formas de sociabilidade através das relações de trabalho, que refletem outras formas de relação da vida humana.
À medida que a criança vai se apropriando ao máximo das possibilidades que a atividade lúdica lhe proporciona para fazer parte do mundo e suas relações sociais, o enriquecimento dessa etapa vai gerando necessidades que suplantam as possibilidades do jogo. Nesse momento entra como prioridade saber o porquê das coisas serem como são para além da simulação de papeis feitos em jogo. É necessário conhecer as leis e regras de funcionamento desse mundo com maior profundidade. Emerge-se uma nova atividade dominante para engendrar o desenvolvimento do psiquismo: a atividade de estudo. Vale constar que a criança não necessariamente deixará de brincar, o lúdico pode se manter ao longo da vida, mas somente deixa de ser a esfera principal de engendrar o desenvolvimento. É importante mencionar também que não existem idades fixas demarcadas para a transição de uma atividade para outra. Isso depende de uma multiplicidade de fatores que variam de pessoa para pessoa.
Levando todas essas informações, os responsáveis e educadores de crianças podem se indagar: qual a importância de tudo isso? Como posso utilizar essas informações no dia a dia? Muito importante aqui ressaltar que o brincar não será desenvolvedor se for espontaneísta. Não devemos esperar todos os ganhos citados deixando-se a criança brincar de modo solitário descobrindo por si própria as formas possíveis de brincar. Cabe aos adultos mediarem o brincar, indagando a criança de sua brincadeira. Se está brincando de cozinheiro, perguntar (levando em conta as condições da criança) o que o cozinheiro está preparando, como vai obter os alimentos, as quantidades de cada ingrediente qual o valor do prato que está servindo, lembrar-lhe que o cliente está esperando a refeição e não pode demorar para servir o prato. Todas essas perguntas reorganizam a brincadeira de modo que corresponda ao mundo das relações de trabalho exigindo sensibilidade sensório-perceptual, foco atencional, desenvolvimento de pensamento e linguagem,  autocontrole, memória, imaginação, dentre outras funções. Além disso, é com essas mediações que a criança irá desvelar a longo prazo as limitações da brincadeira que engendrem a necessidade da atividade de estudos, não como algo arbitrário, mas como atividade geradora de necessidades na criança na escola.
Muitos educadores e responsáveis acreditam que precisam providenciar brinquedos caros e de tecnologia sofisticada. A evolução tecnologia é notável e não devemos fazer pouco caso, nem proibir as crianças de desfrutarem desses avanços. Contudo, precisamos prestar atenção nas perdas que podemos ter no desenvolvimento que se prenda unicamente em jogos individuais, com alta estimulação de imagens e sons e que não mobiliza formas de abstração e interação social com colegas tal como o lúdico no desempenho de jogos de papeis leva em conta. No que tange o acesso a muitos brinquedos, não devemos menosprezar o acesso a estes, mas devemos levar em conta a importância de emergência de funções abstrativas (ver um cavalo num cabo de vassoura, uma boneca numa almofada, pente num lápis), sem contudo romantizar a carência econômica para comprar brinquedos e haver tempo para doar as crianças (contradição que se expressa de modo mais gritante quanto maior as dificuldades sócio-econômicas). Vale ressaltar, em síntese, que brinquedos são importantes, mas a premissa do desenvolvimento não se reduz nestes em si, mas na mediação dos adultos para a criança utilizá-los. Mais vale um boneco explorado ao máximo com o adulto nas possibilidades de brincadeira do que largar a criança sozinha para descobrir jogos de um tablet.
Por fim, outro ponto bastante relevante é levar em conta os significados sociais que a criança começa a internalizar no seio da brincadeira e que influenciarão futuros papeis que venha a desempenhar. A divisão de jogos por gênero (brinquedos de menina x brinquedos de menino) muitas vezes acaba por influenciar não somente a forma da criança lidar com seus pares nos ambientes educativos e diversos como também cristaliza concepções de mundo que venham a formar um futuro adulto. Precisamos enxergar os jogos na infância como momento precioso para desconstruir padrões para que no futuro vejamos mulheres que possam ser engenheiras, construtoras, heroínas, bem como meninos que possam ser donos de casa, cuidadores de crianças, dentre outros exemplos. As atividades sociais reproduzidas nos jogos encerram condições para formação da sociedade para além de preconceitos e para mostrarem aos nossos pequenos que eles podem ser o que quiserem e devem respeitar o que os outros venham a ser também!.

 

Referências

LEONTIEV, A. N. O Desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte, 1978a.

ELKONIN, D.B. Psicologia do Jogo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

 
Nassim Golshan
Nassim Golshan
Psicóloga clínica CRP 06/ 1138562, atendimento clínico de crianças, adolescentes e adultos pela abordagem Sócio-Histórica

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